quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Livro policial!

Não aprecio literatura policial mas este livro morava na minha biblioteca há mais de 15 anos.
Resisti. Muito.
Mas ter um livro ali fechado e passar com os dedos por ele sem conseguir detetar a cumplicidade que se estabelece entre mim e os livros lidos, acariciados e digeridos era doloroso. Que me desculpe Daniel Pennac, mas era demais.
E aí fui eu...


O livro é composto por três novelas policiais publicadas separadamente em jornais chilenos e a primeira dá o nome ao livro.

Com um humor negro regista com frieza, cinismo e sem emoção uma personagem que esconde a sua vida de killer numa relação que de sentimental tem pouco e onde a companheira é sempre vista com um carater sexual. O que lhe aponta de interesse é sempre ligado ao corpo e nunca às suas qualidades morais ou intelectuais:  " Como toda a intelectual é algo ingénua, por isso acredita em qualquer história que lhe conte".

Matadores de aluguer, redes organizadas de crime internacional, leis que falsamente defendem os direitos humanos, paixões na hora errada e que não condizem com uma ética de crime. O autor aproveita todos estes elementos para criar neste livro um clima de James Bond numa escrita que elimina todo o "ruído" que nos pudesse afastar ou distrair da ação principal.

Será que o facto do autor o definir como "sentimental"  irá influenciar as suas decisões na hora de cumprir a "encomenda"?

De leitura fácil e divertida, mas sem ter conseguido reabilitar-me para este tipo de literatura.


domingo, 15 de janeiro de 2017

Romão e Juliana - Mário Zambujal

A segunda leitura de 2017 chegou no Natal com destino à Holanda mas por cá ficou.




Mário Zambujal, com a sua escrita cheia de humor e imaginação, transporta-nos ao reinado de D. João V para nos contar uma história de amor entre dois jovens oriundos de duas famílias desavindas.
A situação temporal escolhida pelo autor não foi ao acaso. O rei D. João V foi o protagonista de imensas aventuras galantes tendo ficado célebre a que manteve com Soror Madre Paula Teresa de Almeida do Convento de Odivelas.
As peripécias por que passam para dissolver as barreiras que lhes vão sendo levantadas são inúmeras e divertidas e o final é surpreendente na medida em que para o autor "Ninguém morre por amor".

Karen - Ana Teresa Pereira








Foi o primeiro livro de 2017. 
Uma pequena surpresa quer pela escrita simples, mas provocadora de sentimentos de estranheza, quer pelas estratégias utilizadas que nos agarram na busca de uma solução que nunca surge.
Mas melhor que a minha, aqui fica a opinião de Miguel Esteves Cardoso.

https://www.publico.pt/2010/06/30/culturaipsilon/noticia/esta-inquietante-estranheza-1656436

Ai que prazer - Propósitos

Liberdade

Ai que prazer 
Não cumprir um dever, 
Ter um livro para ler 
E não fazer! 
Ler é maçada, 
Estudar é nada. 
Sol doira 
Sem literatura 
O rio corre, bem ou mal, 
Sem edição original. 
E a brisa, essa, 
De tão naturalmente matinal, 
Como o tempo não tem pressa... 

Livros são papéis pintados com tinta. 
Estudar é uma coisa em que está indistinta 
A distinção entre nada e coisa nenhuma. 

Quanto é melhor, quanto há bruma, 
Esperar por D.Sebastião, 
Quer venha ou não! 

Grande é a poesia, a bondade e as danças... 
Mas o melhor do mundo são as crianças, 

Flores, música, o luar, e o sol, que peca 
Só quando, em vez de criar, seca. 

Mais que isto 
É Jesus Cristo, 
Que não sabia nada de finanças 
Nem consta que tivesse biblioteca... 

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"